O espaço duplicado

O que um artista plástico faz para ganhar a vida nem sempre é relevante, mas neste caso o assunto interessa. Nelson Miranda é arquitecto e no seu trabalho artístico tem abordado esta disciplina através da fotografia. A exposição que agora apresenta é exemplo disso.

O ponto de partida para estas imagens foi o dos escritórios de uma fábrica abandonada, em Famalicão. Até aqui nada de novo, tem havido bastante gente a fotografar espaços abandonados. O interesse começa no ponto em que esses escritórios passam a ser outra coisa. Tornam-se labirinto, sonho, fantasmagoria e um conjunto de sensações que a geometria, a luz e a repetição acentuam.

A história da fábrica não passa para segundo plano, caso contrário o artista não a mencionaria. Mais, Nelson Miranda fez questão de acrescentar às fotografias um livro de artista, criado a partir do último livro de amostras da fábrica, aquele em que as encomendas se interromperam a partir de determinada data, deixando bastantes folhas vagas. Acrescentou-lhe pequenas frases, uma espécie de sussurros a ecoar no silêncio, por entre portas, vidros e dias.

Sérgio Gomes da Costa, in TimeOut Porto nº81, Dezembro 2016

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