Fundação Lar do Emigrante Português no Mundo

Nelson Miranda tem vindo a desenvolver projetos em torno de espaços industriais que, por diversos motivos, entre os quais a reestruturação económica, consequência da entrada do país na União Europeia, acabaram por se tornar obsoletos, caindo no desuso e no esquecimento. Estas estruturas abundam na paisagem limítrofe das cidades portuguesas. Podem ser vislumbradas das autoestradas e das linhas de comboio e de metro, escondidas pela vegetação que, gradualmente, as substitui. O processo de criação de Nelson Miranda envolve, assim, longos 'passeios' de reconhecimento e observação de imagens satélite. Tratar-se-ia de uma abordagem quase cartográfica do território industrial, não fosse a recusa do autor em sistematizar os seus objetos de estudo. Cada complexo arquitetónico é explorado imageticamente na sua individualidade formal e histórica. Miranda visita os locais diversas vezes, durante vários meses, em busca dos momentos visuais catalisadores da experiência psicológica da ruína - aquela e não outra. Assume a inevitável estetização pelo medium, mas provoca-a no sentido da nostalgia, sentimento que pela sua carga empática devolve a imagem ao real, evitando um prazer simplesmente estético e esvaziado de substância. É também a preocupação com a identidade dos lugares que o leva a recolher objetos encontrados, os quais, quando expostos a par com o registo fotográfico, não só testemunham o passado, como denunciam o presente.

Nesta exposição as fotografias que observamos não são, na verdade, de um espaço industrial, são sim de uma ruína, também ela localizada nos arrabaldes entre Santo Tirso e Trofa, cujos destroços evidenciam uma utilização comercial e habitacional. Contudo, a mostra destas imagens implica, se não uma denúncia, uma reflexão profunda sobre a contemporaneidade política e social. Nelson Miranda confronta-nos com o que resta da Fundação Lar do Emigrante Português no Mundo, uma cidade-satélite projetada na década de 1980, por um emigrante regressado da Venezuela para receber outros que, como ele, desejavam voltar a Portugal. O empreendimento incluía um complexo cultural e desportivo, comércio e serviços, hotéis e apartamentos. As primeiras obras sucederam-se com relativa rapidez. Estruturas como o Salão Luso-Venezuelano seriam palco de atividades culturais cujas receitas financiariam a conclusão da mini-metropólis. No entanto, a verdade é que a Fundação acabou por sucumbir às evidentes dificuldades financeiras em implementar o projeto. A obra edificada encontra-se, atualmente, ao abandono: há vestígios de vandalismo, mas também sinais de ocupação por grupos de extrema direita.

Se as imagens de Nelson Miranda sugerem o mapeamento do espaço para se deterem nos sinais da sua recente utilização por grupos neonazis – os quais constituem os elementos mais perturbadores nesta exposição – o que surpreende, ultrapassado o choque inicial, é o evidente fluxo de todas as derivações do conceito de utopia na história de um mesmo local. A celebração de uma ideia [utópica] da identidade nacional expressa na reprodução das casas típicas das regiões autónomas. A arquitetura dos blocos de apartamentos por finalizar, herdeira de um modernismo já tardio e em tudo deslocada no Portugal da década de 1980, sintoma da distância cultural entre os que regressavam e aquilo que aqui encontravam, constituindo-se como a heterotopia possível para a replicação dos costumes e rotinas entretanto apreendidos. A iconografia Nazi, símbolo assustadoramente distópico. A reflexão espoletada pela coexistência e consequente permeabilidade dos conceitos encerra uma ironia que parece ilustrar exemplarmente o escalar das crises sociais hoje enfrentadas em numerosos países e que perigam, em particular, a integridade da União Europeia e dos seus pressupostos.

A exposição "Fundação Lar do Emigrante Português no Mundo" apresenta três núcleos distintos em confronto direto entre si, convidando o observador à reflexão em torno da temática basilar do projeto. O núcleo principal desenvolve-se em torno da ruína e do seu registo fotográfico. Em diálogo imediato com as fotografias são apresentados os documentos encontrados – correspondência, projetos de arquitetura, ilustrações, cartazes, entre outros –, reveladores do espírito utópico que movia os emigrantes fundadores da instituição. Finalmente, um excerto do documentário “Casa Portuguesa, Casa Estrangeirada” (RTP), no qual o mentor do projeto o descreve em entrevista com Helena Roseta.

Vera Carmo, in folha de sala da exposição, Espaço Campanhã, Porto

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